quarta-feira, 29 de abril de 2009

Armadilhas que podem destruir a reputação da pesquisa qualitativa

Pesquisa qualitativa é coisa séria, mas nem sempre é assim compreendida. Persiste uma idéia bastante difundida de que a metodologia qualitativa é "menos séria" ou "inferior" a quantitativa.

O conceito de pesquisa quantitativa como superior ou mais crível que a qualitativa talvez possa ser explicado, em parte, porque esta pressupõe objetividade - mensuração dos fenômenos com instrumentos previamente elaborados, hipóteses claramente especificadas, variáveis definidas e resultados tratados estatisticamente. Por outro lado, a pesquisa qualitativa, de natureza mais subjetiva, não busca medir os eventos estudados, nem os analisa com instrumental estatístico, mas procura entender a realidade de um dado fenômeno a partir da perspectiva das pessoas que o vivenciam e para isso utiliza abordagens e técnicas mais flexíveis.

Tive a oportunidade de ouvir comentários preconceituosos em relação à metodologia qualitativa muitas vezes nos meios acadêmicos e mesmo entre profissionais de pesquisa de mercado. Embora discorde totalmente de tais afirmações, tenho que reconhecer que algumas atitudes e práticas de profissionais de pesquisa estão colaborando para fortalecer e disseminar uma visão distorcida da pesquisa qualitativa aplicada aos estudos de mercado. Por isso, acho importante colocá-las às vistas. Vamos a algumas das que considero as mais relevantes:

  • Pesquisa qualitativa é fácil - basta gostar e ter jeito para conversar com as pessoas. Não é preciso ter uma formação universitária específica, mas gostar de lidar pessoas;
  • Pesquisa qualitativa é barata - a contratação de profissionais sem qualificação atende à lógica da redução de custos. Isso implica na contratação de profissionais cada vez mais jovens e/ou sem experiência que, quando muito, recebem alguma orientação e partem para condução de entrevistas, discussões em grupo ou as chamadas entrevistas etnográficas.
  • Falta de competência analítica – decorre da formação insuficiente ou deficitária do profissional de pesquisa para interpretar discursos e narrativas, o que resulta em relatórios de pesquisa meramente descritivos, muitas vezes contraditórios e não conclusivos;
  • Solução caseira – profissionais das áreas de marketing, pesquisa de mercado e publicidade ou outras se colocam no papel de pesquisadores. Saem às ruas com um roteiro improvisado, gravador ou câmera na mão e, após algumas entrevistas breves, retornam com "insights". Rápido, de baixo custo e achados freqüentemente equivocados.

A persistirem essas práticas, o fim dessa modalidade de pesquisa tem data marcada.

Crise financeira e o surgimento de um novo consumidor – O simplificador

A crise financeira que começou a ganhar dimensões críticas a partir de setembro de 2008 está alterando de modo radical o ambiente dos negócios em praticamente todo o mundo. Com a rápida difusão da crise através de suas ramificações sistêmicas, tudo indica que as alterações nos mercados e no comportamento dos consumidores será profunda e durável. Em períodos de recessão econômica os consumidores tendem a adotar padrões mais conservadores de consumo, evitar excessos de auto-indulgência, além de utilizar critérios mais racionais de compras. Contudo, em crises mais profundas, cujos efeitos se prolongam por períodos de meses ou anos, a tendência é das mudanças no comportamento de consumo assumirem um caráter mais duradouro.

Baseado nessa premissa o professor John Quelch da Harvard Businness School propôs que em razão das alterações no cenário econômico as mudanças de comportamento levariam as pessoas a adotar um novo padrão de consumo que ele denominou de "Simplificadores" (Simplifiers em inglês), que inicialmente se expandiria nas classes mais altas – média alta e alta - e, posteriormente, tenderia a se difundir rapidamente pela sociedade. As 4 características mais salientes desse novo perfil que Quelch descreve seriam:

  • Consciência de que possuem muito mais objetos do que de fato necessitam;
  • Percepção de que o excesso de bens pode ser embaraçoso e, pior ainda, na medida em que a posse de bens categorizados como "de luxo" difundiu-se pela sociedade, os objetos perderam a capacidade de agregar status social (1);
  • Desejar e valorizar mais as experiências do que o simples acúmulo de bens e objetos;
  • Viver bem seria viajar para lugares exóticos (nada de pacote turístico), jantar em restaurantes charmosos de culinária sofisticada, mas nada ostensivos e praticar esportes diferentes. Enfim, fugir do estilo "enricado"(2), muito comum no Brasil de hoje.

O perfil "simplificador" seria oposto ao padrão que caracterizou o consumo da década de 1990 - 2000. Daí a tendência a rejeitar o consumo rotulado como "de luxo" e do que se entende por "estilo de vida dos ricos" – i.e. casas grandes, com muitos cômodos recheados de utensílios domésticos, TVs LCD acima de 50 polegadas, carros do tipo sport utility com motores V6 e V8 e grifes, muitas grifes.

Segundo o professor de Harvard, o estilo "simplificador" deve se desenvolver nos países mais desenvolvidos, que já teriam atingido um certo estágio de desenvolvimento econômico e cultural. Já os países em desenvolvimento seriam o destino alternativo para os fabricantes dos bens e objetos que não teriam mais tanto apelo nos países ricos. Curioso notar como as montadoras estão investindo no Brasil e trazendo para cá modelos que antes chegavam apenas como "importados" e a um preço elevado. Mesmo assim, acredito ser difícil generalizar, uma vez que há já alguns anos segmentos da elite local vem se afastando do consumo de bens ostensivamente de luxo. O crescimento do consumo desses itens estaria se dando em segmentos da classe média alta e entre aqueles agraciados com fortunas recentes.

Para ler o artigo do prof. Quelch na íntegra clique aqui

(1) A elite, desempenhando seu papel de centro emissor de costumes, abandona hábitos que ela mesma ajudou a criar a partir do momento em que esses hábitos tornam-se acessíveis às massas e não oferecem mais diferenciação social nem cultural.

(2) "Enricado" - Neologismo produzido a partir da corruptela do termo enriquecido, de uso comum nas classes mais baixas do Brasil e no discurso de alguns políticos em evidência.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Pesquisa e inovação – o caso do sapato – abridor de garrafas

Dia desses vi um outdoor que me chamou a atenção pelo inusitado do produto anunciado - um sapato masculino que acumulava a função de abridor de garrafas. Trata-se de um lançamento da fabricante de sapatos Francajel.

O que mais atraiu minha curiosidade como especialista em pesquisa de marketing foi o apelo essencialmente kitsch (1) do produto. Pensando mais sobre aquele objeto inusitado, me surgiram as seguintes questões: Teria sido o sapato abridor concebido como resultado de pesquisas? Será que foram identificadas demandas dos consumidores por um calçado com conteúdo tecnológico (convergência de tecnologias)? Ou simplesmente alguém teve um momento criativo extraordinário, algo como uma epifania (2), que revelou um caminho: o sapato abridor.

A história do marketing está repleta de casos de produtos – alimentos, bebidas, cosméticos, veículos, utensílios domésticos, eletroeletrônicos dentre outros - que não alcançaram o sucesso esperado por seus idealizadores, tiveram um desempenho insatisfatório nas vendas e terminaram retirados do mercado.

Muitos desses produtos nasceram na esteira da inovação. Desenvolver novos produtos para suceder os que já estariam em declínio no ciclo de vida é condição vital para empresas se tornarem competitivas e lucrativas. Mas por que alguns produtos alcançam o sucesso e outros não são aceitos pelo público?

As razões que podem explicar a rejeição de novos produtos podem ser as mais variadas, destacando-se especialmente os relacionados às características tangíveis dos mesmos – sabores, aromas, embalagens, características tecnológicas etc. Existem ainda outros fatores que podem contribuir para que novos produtos sejam preteridos pelos consumidores (3):

  1. Muitos lançamentos são percebidos como tendo atributos e benefícios inferiores a produtos existentes da mesma categoria;
  2. Alguns fracassos são justificados devido a processos de comunicação e difusão ineficazes;
  3. Novidades tendem a ser rejeitadas porque denotam uma tentativa de mudar comportamentos e hábitos de consumo já aprendidos. Produtos novos tendem a influenciar o comportamento das pessoas que o adquirem e o utilizam, exigindo abertura para adoção de inovações e, conseqüentemente, uma reconfiguração de hábitos.

Independente dos motivos para a rejeição parece existir um fato muito comum entre produtos que, digmos, não deram certo. Eles chegaram ao mercado sem terem sido submetidos à apreciação prévia do público a quem se destinavam. Ou seja, não foram devidamente pesquisados, testados junto ao público-alvo. Foram simplesmente... Lançados!

A pesquisa de mercado serve justamente para sondar as possibilidades de aceitação ou rejeição de um produto novo, levantar seus aspectos apreciados e os rejeitados pelo público alvo.

Não sei se o sapato – abridor foi ou não testado. Talvez ele até tenha lá seu público, que esteja buscando este tipo de convergência tecnológica. Em todo caso, ele inspirou essa minha reflexão.

(1) kitsch - termo de origem alemã (verkitschen) utilizado para categorizar um objeto de valor estético distorcido e/ou exagerado. Também utilizado para definir objetos que acumulam múltiplas funções.

(2) Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou finalmente a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa" do problema.

(3) Ver Engel, Blackwell & Miniard – Comportamento do Consumidor – 8ª. edição, Livros Técnicos e Científicos Editora S/A, Rio de Janeiro, 1999.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Relacionamento com o consumidor – o que realmente faz a diferença?

Se eu começar a citar os famosos clichês que dão conta de enaltecer a figura do cliente na relação comercial um post será pouco. "Cliente em primeiro lugar", "Cliente satisfeito é cliente fiel" entre outras.

Tem sido recorrente nos discursos de marketing, nas missões das empresas, nos manuais de qualidade e de atendimento ao cliente (SAC) tomar a figura do cliente como um agente definitivo para o sucesso da empresa. Em outras palavras, empresas entendem que não sobrevivem sem clientes. Mas, discursos à parte, só há uma maneira de se conhecer realmente a conduta de uma empresa em relação ao cliente: a experiência.

Recentemente comprei num hipermercado dois bolos light da marca Renata, ambos com validade até setembro de 2009. Abri a primeira embalagem e o bolo estava mofado, a segunda, idem.

Liguei para o SAC da empresa e fui recebida por uma atendente que quis ouvir minha história antes mesmo do inevitável e burocrático preenchimento de cadastro. Como já estive em inúmeras situações como esta, confesso que minha atitude foi de total prevenção. Imaginei que ouviria uma seqüência de argumentos automáticos aprendidos nos treinamentos de atendimento: aguarde nosso retorno, não podemos fazer nada no momento, dirija-se com o produto no local da compra para efetuar a troca etc.

Contrariando as expectativas pessimistas, a atendente conduziu o caso da seguinte maneira:

  1. Pediu para que eu contasse o problema. Ela não pediu informações cadastrais inicialmente;
  2. Disse para eu jogar os bolos no lixo imediatamente e me explicou que mofo pode ser perigoso à saúde e pode contaminar outros alimentos. Fiquei espantada por não ter me pedido para enviar o produto como prova;
  3. Solicitou o número do lote dos produtos para análise técnica;
  4. Confirmou o local da compra para que a empresa mandasse técnicos que fariam uma inspeção das condições de armazenamento do local;
  5. Solicitou meu endereço para enviar, em até 15 dias, dois bolos para repor os danificados.


15 dias depois a empresa Renata/Selmi enviou os bolos bem embalados e acompanhados de uma carta agradecendo minha colaboração e colocando-se à disposição. Além disso, ainda me enviaram como cortesia um pacote de queijo ralado.

Na prática de pesquisa de mercado costumo ouvir com mais freqüência reclamações que elogios sobre a conduta de empresas no atendimento ao cliente. Vejo que o que realmente incomoda os clientes é receber um atendimento indiferenciado,
estereotipado, lento, frio, burocrático, desconfiado a priori e, na maioria das vezes, com um resultado insatisfatório.

Clientes são pessoas e querem ser ouvidos como indivíduos que têm uma história particular com aquele produto ou serviço. Querem trazer as suas perspectivas do problema.

O que faz realmente a diferença é abrir o canal para ouvir o sujeito e não adotar procedimentos padronizados que podem facilitar a operação de atendimento para as empresas, mas não garantem um atendimento de qualidade ao cliente.

A Renata/Selmi, pelo menos nesse episódio, mostrou competência para entender o cliente.

segunda-feira, 30 de março de 2009

O consumidor está nú

Estamos cada vez mais vulneráveis. Não é fato novo que informações sobre quem somos, o fazemos, o que consumimos, locais que freqüentamos, documentos pessoais e demais dados de cunho sigiloso circulam livremente e são compartilhados sem cerimônia por empresas com "objetivos mercadológicos".

O Jornalista Erik Larson em seu livro de 1992 "The Naked Consumer – How our lives become public commodities" apresentou um apanhado de estratégias utilizadas por diferentes empresas para acessar o consumidor americano com objetivo de divulgar produtos e serviços. Ele nos conta que no dia seguinte ao nascimento de sua segunda filha recebeu em sua casa um pacote de fraldas da Procter & Gamble. A partir desse evento passou a questionar: como uma empresa conhece e utiliza detalhes tão íntimos de sua vida? Esse evento despertou o seu interesse em investigar os sistemas desenvolvidos por companhias americanas para chegar até os consumidores e nos propõe uma reflexão válida - seria apenas estratégia de negócios ou invasão de privacidade e da liberdade individual?

O resultado destas ações promocionais quando se limitam ao envio de mailing ou amostras de produtos podem ser interessantes do ponto de vista de marketing e costumam ser pouco invasivas para o consumidor. Mas nem sempre nossas informações são utilizadas com parcimônia. É justamente quando os limites da privacidade são largamente ultrapassados e há prejuízo para ambas as partes, empresas e consumidores.

Relato a seguir um caso que ilustra a questão.

Por insistência de uma atendente de caixa da Kalunga, aquela empresa que vende materiais para escritório, aceitei fazer um tal de Cartão Aura. Sabe quando se faz algo mais imbuído da intenção de ajudar do que por interesse próprio? Pois bem, recebi o tal cartão em novembro de 2008, o guardei na gaveta, não o desbloqueei para uso e esqueci totalmente de sua existência. Pois não é que em fevereiro de 2009 chega a minha casa uma fatura referente à compra de um celular na Americanas.com que eu não comprei e, pior ainda, com um cartão que estava bloqueado. Não preciso entrar em maiores detalhes, mas quero deixar registrado que foi um árduo caminho até solucionar o problema da fraude – conseguir cancelar o tal cartão e a referida compra.

O que é realmente alarmante é saber que pessoas de má fé tiveram acesso aos meus dados pessoais, sabe-se lá de que maneira, e que conseguiram driblar os tais "procedimentos de segurança" que, teoricamente, garantiriam o meu sigilo e segurança financeira.

Embora desgastante, consegui reverter o meu prejuízo como consumidora. Mas não posso dizer o mesmo das empresas envolvidas, pois episódios como esse fazem um tremendo estrago na imagem.


terça-feira, 24 de março de 2009

Tendência 1: Como moraremos daqui em diante?

No final de 1999 fomos convidados pela Alternativa Editorial, especializada em publicações dirigidas ao setor moveleiro, para participar de um projeto que tinha como objetivo elaborar um volume especial sobre as tendências de comportamento de consumo no próximo milênio e que foi publicado em abril de 2000 com o nome de "Caminhos do III milênio". Para nós foi uma atividade bastante interessante, pois como pesquisadores e professores tínhamos reunido um conjunto vasto de informações que nos permitiram, naquela ocasião, elaborar 14 tendências sobre hábitos de consumo de produtos e serviços, moradia, relacionamento familiar e social, organização do trabalho, lazer, etc.

Nesses 9 anos retomamos com freqüência esse material para orientar nossas análises como pesquisadores de mercado e constamos que, salvo alguns detalhes tópicos, as tendências que apontamos como possibilidades foram se consolidando. Mas há uma dessas tendências que quero comentar, pois parece estar ocupando um espaço relativamente importante nas mídias e nos discursos do cotidiano: a maneira como moraremos e viveremos em nossas casas.

Em 2000 prognosticamos que – vai aqui o texto na íntegra - "o estilo "houser" deverá aumentar sua influência, ou seja, as pessoas vão se confinar mais ao espaço doméstico. Seja devido à violência urbana, a maior disponibilidade de equipamentos de lazer por preços mais acessíveis ou porque terão mais tempo livre. As pessoas devem transformar suas casas em espaços de lazer e convívio social".

Semana passada o jornal O Estado de São Paulo (Caderno Cidades - 17/03/2009) publicou matéria sobre condomínios que estão sendo criados para serem bairros privativos. Muitos deles estão sendo construídos em grandes terrenos que abrigavam antigas fábricas desativadas e reúnem num mesmo espaço prédios para moradia, escritórios, lojas, dezenas de opções de lazer, garantindo aos futuros moradores qualidade de vida, segurança, conveniência e comodidade. "Tudo no mesmo lugar sem precisar sair de casa". Os tais condomínios "4 em 1" têm sido vendidos com facilidade – o artigo menciona que em 6 meses de anúncio 70% de um empreendimento no bairro do Campo Belo já havia sido vendido. E até 2011 São Paulo ganhará mais 7 conjuntos que unem residência, trabalho, lazer e comércio.

O que parece estar acontecendo é que a nossa sociedade está buscando tais formas de moradia como tentativa de preencher lacunas deixadas pelo Estado que já não dá mais conta de garantir, entre outras coisas, segurança e qualidade de vida aos cidadãos. Decorre daí a busca privada por uma "relativa sensação de segurança", promessa dos condomínios fechados e dos bairros privativos.

Tenho conversado com pessoas que vivem em condomínios fechados e que dizem ter procurado tais locais porque desejavam, principalmente, mais segurança, tranqüilidade e a possibilidade de usufruir do espaço da casa com suas famílias e amigos. A própria forma como se constroem e se organizam os ambientes procura valorizar o convívio, vide as cozinhas e varandas gourmets bem equipadas ou as salas integradas com cozinhas e varandas que são cada vez mais utilizados como argumento de venda dos lançamentos imobiliários.

Isso tudo vem confirmar nosso prognóstico de 2000. CQD.

sábado, 21 de março de 2009

O fim da pesquisa de marketing como nós a conhecemos?


Não sei se estou me sentindo preocupado pelos recentes documentários do History Channel que tratam do apocalipse, do Armagedom e das possíveis relações disso tudo com o calendário Maia que termina em 2012, além das sempre citadas profecias de Nostradamus e dos índios Hopi - ufa! Isso tudo poder ser apenas excesso de imaginação, contudo, parece que o clima de expectativas apocapílticas também chegou à área da pesquisa de marketing, como se pode notar na entrevista recentemente publicada no site Divas Marketing com o diretor da ARF (Advertising Research Foundation) Joel Rubinson. O tema era justamente as profundas mudanças que estariam começando a acontecer na área de pesquisa de marketing em razão da emergência das assim chamadas "mídias sociais" (1). Tais mudanças segundo Rubinson irão transformar a pesquisa de marketing de tal maneira que uma participante de um dos eventos da ARF chegou a dizer que até 2012 - olhe a data de novo - a pesquisa de marketing que conhecemos estaria sobrevivendo apenas com a ajuda de aparelhos. Em outras palavras, estaria moribunda numa UTI qualquer esperando o fim chegar.


Poder para as pessoas

Mas afinal qual o desafio que as mídias sociais apresentam para os anunciantes, publicitários e pesquisadores cujos interesses a ARF representa?

A questão é que até não muito tempo atrás os públicos alvo das estratégias de comunicação (consumidores) eram vistos como passivos, ou quase isso. Mesmo por que existiam poucos canais de comunicação ascendente, isto é, do mercado consumidor para o anunciante. Dentre esses canais, temos os serviços de atendimento ao consumidor (SAC), órgãos de regulamentação dos anunciantes (tipo CONAR) para proteger o público de eventuais abusos representados por propaganda enganosa além, é claro, das áreas de pesquisa de marketing encarregadas de prover as empresas de informações sobre seus mercados, produtos, serviços e, principalmente, sua imagem. Mas, a questão é que esses canais de comunicação ascendentes são controlados pelas próprias empresas e, normalmente, quando o consumidor precisa utilizar desses canais – individualmente ou em grupo - trata direto com as grandes organizações. Uma conversa que podemos chamar de particular – consumidor e empresa – onde raramente os conteúdos, sejam queixas ou sugestões, chegam às mídias de massa.

Ora, com o advento das mídias sociais esse cenário mudou radicalmente. Agora as pessoas dispõem de canais livres para se comunicar e se expressar sobre o que quiserem, inclusive sobre suas experiências de consumo. Podem opinar e interagir com outros consumidores sobre produtos, serviços ou mesmo sobre campanhas publicitárias de modo totalmente independente das empresas, dos publicitários e dos pesquisadores. A tecnologia deu muito mais poder aos consumidores não apenas para se defenderem. Agora eles podem atacar. E isso representa uma ameaça ou um risco para as grandes corporações preocupadas em manter uma imagem positiva junto aos diferentes públicos com que interagem. Ao mesmo tempo em que torna mais vulnerável a posição de publicitários e pesquisadores, que não controlam o conteúdo das mídias sociais e podem de uma hora para outra ver uma fragilidade exposta para o grande público.

Então qual a solução proposta pelos combatentes da Advertising Research Foundation? Tomar a iniciativa de monitorar os conteúdos gerados pelas mídias sociais. Em outras palavras, voltar os esforços de pesquisa para as mídias sociais, que têm como características serem muito rápidas e mutáveis. Para tanto será necessário desenvolver novas abordagens e ferramentas de pesquisa – aguardem vou preparar um post sobre ferramentas analíticas - para coletar dados que sejam relevantes gerados pelas mídias sociais. Além disso, será necessário também desenvolver novas capacidades analíticas para extrair informações dos dados e, mais adiante, gerar conhecimento que poderá alimentar o processo decisório da empresa. Isso tudo, claro, demandará mudanças sistêmicas nas organizações, inclusive alterações na sua cultura, o que se sabe, não é nada fácil.

Além da retórica, alguns fatos...

A difusão da internet e da comunicação móvel via rede celular sem dúvida veio para ficar e os números do relatório IBOPE/NetRatings, relativos ao último trimestre de 2007, comprovam isso. O relatório contabilizou um total de 22 milhões de internautas residências no Brasil. Quando são considerados todos os ambientes de onde se pode acessar a internet – além da residência, trabalho, escolas, lan houses, bibliotecas, telecentros - o número sobe para 40 milhões (2) em uma população de mais de 170 milhões, segundo o último censo do IBGE (3). Outro estudo comparativo de cinco países conduzido pela consultoria Deloitte (4) indica que as pessoas tendem a investir mais de seu tempo na Internet e deixar a televisão de lado. Segundo a pesquisa, no Brasil, os entrevistados declaram gastar 19,3 horas por semana na Internet por razões pessoais e apenas 9,8 horas assistindo TV (para visualizar a tabela abaixo clique sobre ela).
Fonte: Deloitte State of the Media Democracy survey 2009.

Contudo, o mesmo estudo indica, paradoxalmente, que os participantes da pesquisa consideram os anúncios na TV, nas revistas e jornais – ou seja, as mídias mais "tradicionais" – mais atraentes ou impactantes nas suas decisões de compra do que aqueles veiculados online. Existem outros estudos semelhantes e os dados algumas vezes são convergentes, outras vezes não. Porém, não resta dúvida de que a internet está rivalizando com a televisão e dela retira tempo de audiência em maior ou menor proporção dependendo do perfil da população estudada.

Agenda setting

Então, será que podemos deduzir disso tudo que a pesquisa de marketing está com os dias contatos, como deixou claro uma das participantes de um evento promovido pela ARF? Creio que se trata de um pulo no escuro ou, sendo mais direto, de uma conclusão apressada. Não se pode negar a importância conquistada pelas assim chamadas "mídias sociais", tampouco parece prudente deixá-las de lado quando o assunto é pesquisa de marketing. Mas daí a dizer que a pesquisa focada nas mídias sociais irá substituir a pesquisa tradicional vai uma grande distância. Acredito que durante um bom tempo os dois campos de pesquisa (real e o virtual) irão coexistir. Da mesma forma que o comércio online não substituiu as lojas físicas. Na verdade, o comércio via lojas físicas continua a crescer.

Talvez seja a hora de dizer uma incômoda verdade – nem tudo o que se divulga na internet como pesquisa ou opinião profissional está isento de segundas intenções. Não raras vezes a rede é utilizada para criar fatos, gerar boatos e para instituir uma nova agenda ou influir em temas de modo a lhes emprestar importância e legitimidade. As razões que movem os autores dessas "verdades convenientes" e dos "consensos fabricados" nem sempre ficam claras. A essa tática de ação micropolítica os especialistas em comunicação de massa denominam de agenda setting. Talvez seja o caso de acompanhar a discussão sobre a pesquisa das mídias sociais com atenção, mas manter o "desconfiômetro" ligado.

  1. Mídias utilizadas por pessoas comuns e que produz uma grande quantidade de informações utilizando para isso todo tipo de tecnologia disponível - Internet e redes de comunicação móvel - para se comunicar de maneira fácil e direta com outras pessoas com interesses e opiniões semelhantes ou não. Exemplo de mídias sociais - Facebook, Orkut, blogs, grupos de discussão, além do YouTube, Flickr entre outros, aliás muitos outros.
  2. Número de internautas residenciais chega a 22 milhões no Brasil. IDG Now! Publicada em 26 de março de 2008.
  3. Sinopse preliminar do censo de 2000. O próximo censo populacional ocorrerá em 2010.
  4. Deloitte State of the Media Democracy survey 2009. Para acessar uma amostra de 44 páginas do relatório em pdf clique no nome do arquivo.